Livros da Pesquisa

A marcha dos ‘pequenos’ proprietários rurais: trajetórias de migrantes do Sul do Brasil para o Mato Grosso - Cristiano Desconsi

Este livro trata do processo migratório do Sul do Brasil para o Mato Grosso nas décadas recentes.Partimos do pressuposto de que este fluxo migratório apresenta uma heterogeneidade de experiências que produzem uma complexidade de relações que se modificam em cada período histórico. Neste sentido, trazemos a seguinte questão geral: Como podemos compreender a formação dos “pequenos” proprietários rurais no Mato Grosso no período pós-90, a partir de famílias que migraram do Sul do Brasil? Para estudar este fato, o trabalho opera tomando como caminho metodológico a análise de trajetórias de 25 famílias, que compõem este grupo social, identificadas no trabalho de campo exploratório realizado na microrregião do Alto Teles Pires. Desta forma os objetivos deste trabalho são: i) trazer o debate sobre migração como centralidade, delimitando caminhos teórico-metodológicos que auxiliem na investigação; ii) refletir sobre o contexto sócio-histórico pós-90, identificando os caminhos e as estratégias de “entrada” no Mato Grosso desencadeadas por este grupo social; iii) identificar os principais mecanismos de seletividade e distinção social presentes no processo migratório; iv) identificar os papéis das redes sociais (familiares, de parentesco e “conhecidos”), nos deslocamentos dos atores pesquisados e os vínculos que os interligam às regiões de origem.

O estudo identificou que as famílias alternam historicamente períodos em suas trajetórias entre o trabalho agrícola “de peão”, caminhoneiros, além da condição de proprietários rurais em chácaras e assentamentos rurais, sempre destacando que no centro dos percursos está na busca pela acumulação de patrimônio a fim de reproduzir o grupo familiar. Os migrantes do Sul “de pouco recurso” avaliam cotidianamente as possibilidades de acesso a terra nos assentamentos rurais, mapeando os locais dos projetos e a sua situação; mapeiam, da mesma forma, como horizonte possível para acesso ao trabalho agrícola, novas áreas em expansão na fronteira localizadas “mais a frente”. Há uma relação estabelecida entre as fases do ciclo de vida e a migração que sempre deve ser compreendidas de modo associado às condições sócio-históricas que se manifestaram no decorrer das trajetórias dos atores estudados e das gerações anteriores. Por fim, consideramos que, inerente ao processo migratório, estão as redes sociais que reúnem mais que os consanguíneos (da família e do parentesco), os afins, em relações flexíveis permeadas pelo pertencimento (“os conhecidos”) que acionam valores morais e a reputação a partir do lugar de origem. Através destas redes se constrói, circulam “os conhecimentos”, ou seja, as informações, valores, que se materializam em práticas, fundamentais nas avaliações cotidianas dos atores entre migrar ou permanecer.